José Rodrigo Rodriguez

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A voz

In Poemas para mim mesmo on 30/09/2009 at 15:52

José Rodrigo Rodriguez

puzzle

Não há mais intervalos
pois mesmo durante o sono,
alguma coisa se põe a fazer em mim
alguma coisa se põe a pensar em mim
alguma coisa em mim como ferramenta
que corta e torce, esmaga e rasga.

Não há mais intervalos,
sorrio sempre um riso de tormenta,
a chuva sempre cai entre os veículos
atrás das guias sujas morrem árvores

e comem ratos.

Não há mais intervalos,
não há mais um espaço ou passo ou ar,
não há mais um silêncio, som uníssono
sem tom, dissente, resto, asco
sem encaixe.

Mas às vezes, acidente,
alguma nota – vibra – que se encaixa,
às vezes algum canto ou tom ou silvo
às vezes e uma vez,
é o que basta: intervalo
que interrompe
a cadeia de impasses.

Uma conversa, uma nota, um olhar,
uma linha
um almoço, um pedaço, um sorriso
que se encaixa.

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Existe amor entre o homem e sua mulher inflável?

In Aforismas e fragmentos on 28/09/2009 at 15:58

Real doll

Recentemente descobri que há empresas fabricando bonecas e bonecos com cara de mulher/homem, textura de mulher/homem, peso e cheiro de mulher/homem, mas feitos de mentira, ou melhor, de resina. Vejam por exemplo aqui, uma versão bem sofisticada: http://www.realdoll.com/cgi-bin/snav.rd?action=viewpage&section=dollgallery. Custam mais ou menos 15.000 dólares; informação para os/as interessados/as.

Fiquei pensando no que isso significa, quer dizer, que tipo de sociedade foi capaz de produzir algo desse tipo. Num primeiro olhar, minha repulsa é visceral. A separação competa entre sexo e humanidade parece ter atingido o grau máximo neste tipo de artefato. 

Fazer sexo casualmente, mesmo que seja impessoal, ainda encerra o risco de você se deparar, em algum momento, com o ser humano que está ali, sempre cheio de demandas e necessidades. Um garoto ou garota de programa é menos arriscado, mas a fantasia ainda está presente.

duende

Não conheço ninguém que utilize este serviço e não tenha ficado encantado/a com alguma pessoa e tenha ao menos querido se envolver com ela.  E vice-versa: isso também vale para os profissionais do sexo. Há muitos filmes e livros sobre relações amorosas que acontecem nestas circunstâncias. 

Pois a despeito do aspecto mercantil, a prostituição também é afetiva e está ligada com a necessidade de “encontrar alguém”, ou seja, “o” alguém, com quem possamos dividir a cama e a vida. Afinal, ao que tudo indica, esta parte do cérebro não fica destivada quando se faz sexo por dinheiro.

O que mais espanta no caso destes bonecos e bonecas é anular justamente isso: não há risco do se apaixonar.

Ou será que existe? A paixão, grande parte das vezes, não exclui a humanidade do outro? Mitificamos suas qualidades para moldar aquela existência à nossa, contra todas as evidências. O fim da paixão é sempre a humanização, que coloca o outro num lugar menos elevado e revela coisas que não conseguíamos ver.

cego[1]

O outro vai nos decepcionando por não seguir o figurino que lhe foi traçado, o que nos faz ver que não hé relação perfeita, que não há amor pleno. Sempre haverá problemas, brigas, incompatibilidades, falhas. Por isso, de uma certa forma, nos apaixonamos sempre por uma boneca ou boneco de mentira, fantasia quase pura, sem carne e sem sangue, cuja verdade estará além da paixão e cuja realidade não podemos acessar naquele momento.

Não há paixões intermináveis, assim como não há fadas, nem há Papai Noel ou duendes. A realidade, ou seja, aquilo que não controlamos, aquilo que se impõe para além da fantasia, sempre acaba aparecendo. Num certo sentido, essas bonecas e bonecos de mentira são a essência da paixão como nós a conhecemos. Ao menos na forma de clichê, aquela das novelas, livros e filmes comerciais; aquela com que sonhamos por prometer a plenitude.

Só existirá paixão totalmente realizada por um boneco ou por uma boneca. De resina, de borracha, de pano…

Um professor, muito amigo  meu, me disse, sem querer dizer, algo chocante sobre o tema da mitificação. Ele teve paralisia infantil, portanto, manca muito de uma perna. Uma vez eu, bem mais novo do que ele, caminhando por sua Faculdade, me ofereci para carregar seus livros, sempre inúmeros, acrescidos à sua pasta, sempre cheia de papéis.

paralisia infantil

Ele parou de andar, olhou para mim e disse: “Nunca nenhum aluno meu se ofereceu para carregar minha pasta, você acredita? Muito obrigado.”  E me passou seus livros. Claro, ele não teria coragem de pedir isso a um aluno por medo de humilhá-lo, ao submetê-lo à situação daquele que carrega os livros do mestre e, portanto, é visto como um adulador. Ao invés disso, escolheu esperar uma oferta de ajuda que nunca veio.  

Por não ser seu aluno, livre da mitificação, fui capaz de ver sua perna defeituosa e sua dificuldade em carregar tanto peso escada acima. Os que se relacionavam com ele a partir do mito que a posição de professor encerra, viam sempre um homem forte, poderoso, sábio, sem perceber que no fundo, como todos nós, meu amigo estava completamente desamparado diante da existência. No caso, um desamparo físico impossível de ignorar, a não ser em razão do mito. 

Mitificar a paixão e deixar de ver o outro serve a que tipo de sentimento? Até onde posso ver, a um sentimento autoritário, violento, infantil e desumando. Todos padecemos dele, todos sofreremos os efeitos das paixões ao longo da vida e provavelmente nunca nos livraremos deles, mas será o caso de mitificá-lo e transformá-lo em padrão das relações amorosas? Em um ideal a ser atingido?

Para o amigo Bruno Tolentino

In Aforismas e fragmentos on 24/09/2009 at 13:32
Érico Nogueira, Poeta, autor de "O Livro de Scardanelli"

Érico Nogueira, Poeta, autor de "O Livro de Scardanelli"

Republico abaixo um texto muito comovente de meu amigo poeta, Érico Nogueira, para Bruno Tolentino, seu amigo e grande influência literária. Um texto saudoso, de amigo para amigo. Leia a publicação original no blogue Ars Poetica: http://ericonogueira.blogspot.com/.

Tive o prazer de falar  sobre o Bruno ano passado, num colóquio no IICS, a partir de um convite vindo do Érico. Pintei a poesia de Tolentino como “pós-moderna”, tentativa de restaurar formas e temas clássicos a uma realidade completamente diferente. Não falei na hora, mas penso agora em Omeros de Derek Walcott e tantas outras referências que caminham neste mesmo sentido. Talvez com uma diferença: Bruno parece acreditar, em algum nível, que esta “restauração” seria possível.

A poesia de Érico bebe nessa fonte, mas com um tom bem menos autoconfiante. Ao ler os textos de Tolentino, sinto a famosa “saudade do que nunca tive” diante um mundo que aparece como degradado e baixo. Érico, pelo menos nos momentos de sua poesia com os quais eu mais me identifico, é , de corpo e alma, um poeta deste tempo. Não quer restaurar ou recuperar nada, mas sim atualizar as formas, fazendo-as trincar e partir com conteúdos que lhe seriam, a princípio, estranhos. Talvez Omeros tenha mais a ver com Érico do que com Bruno afinal…

Por isso mesmo, seu projeto estético, delineado na estréia “O Livro de Scardanelli” (É Realizações, 2008: clique aqui para comprar), parece ser bem mais complexo e irônico do que o de Bruno; menos marcado por verdades projetadas sobre o presente, vindas de um passado glorioso ou de algum lugar mais elevado…

Bem, às vezes os poemas parecem  oscilar entre as duas posições: digam os leitores! E vejamos como será o segundo livro! Nesse meio tempo, leiam os poemas e o texto abaixo, escrito pelo grande amigo, Erico Nogueira.

Bruno

Bruno Tolentino (1940-2007)

“As epifanias”, 114 

de Erico Nogueira

 Depois de ler, emendar e postar o texto de Bruno sobre Gilberto; depois de reabrir A imitação do amanhecer, não nos “noturnos”, lidos e relidos, nem nas “antífonas”, decerto a parte mais árida da obra, senão nas “epifanias”; depois de ler quase 200 poemas de uma só vez, e misturar leitura, memória e reflexão, deixo aos leitores esta pérola, este poema literalmente perfeito, de um Bruno chegado ao auge da sua técnica e da sua inspiração:

 Se passei dos cinqüenta e das três da manhã
queimando maço atrás de maço; se me agarro
desamparadamente ao último cigarro
como Adão à serpente; se me tortura a vã
obsessão da queda, o sabor da maçã,
e ainda assim insisto em modular meu barro
e fazer dele a gaita, ou a flauta de outro Pã;
se largo tudo enfim e abro a janela e escarro
entre a vaidade, a noite e o carro do vizinho,
será talvez por isso mesmo: porque creio
que tudo vai passar, mas o canto sozinho,
se conseguir abrir a escuridão ao meio,
há de salvar-me! O canto… Esse meu velho espinho
sempre me fez sangrar, nunca disse a que veio.

 Conheci-o no lançamento de O mundo como Idéia, em 2002, quando lhe deixei alguns poemas e o número do meu telefone. Ele me ligou depois de cerca de um mês, e fui visitá-lo na casa paroquial da PUC, onde ele morava e aonde eu passei a ir quase que semanalmente. Durante esses cinco anos de convivência, aprendi muito, li muito e escrevi o meu Scardanelli, que teve a feliz fortuna de ser lido e aprovado por ele, que, segundo me afiançou, gostara imensamente do estilo e da concepção da obra. Mas isso não vem ao caso. O caso é antes a saudade, o vazio que me ficou desde que Bruno morreu. É certo que tenho amigos poetas, e poetas consagrados, com quem aprendo muito; mas não estou mais nos meus Bildungsjahre, e ninguém haveria, além disso, tão atento, fraterno e zeloso com os jovens poetas quanto ele. Esteja onde estiver, meu amigo, vai daqui um afetuoso abraço.

O Tamanduá Bandeira pergunta…

In O Tamanduá Bandeira pergunta... on 24/09/2009 at 11:43

Às vezes eu fico em dúvida diante das evidências mais inequívocas. Tem dias que eu acredito que focinho de porco é mesmo tomada, que sopa de pedra é uma caríssima iguaria da cozinha tradicional francesa e que “comer tomate cru” é um conselho de saúde oferecido por um amigo preocupado com meu bem estar. 

Nestas ocasiões, fico precisado da ajuda de pessoas capazes de me fazer voltar à realidade.

Continuo a registrar neste blog algumas destas questões sob o nome “O Tamanduá Bandeira pergunta…”, sempre em busca de auxílio para ser capaz de ver aquilo que está diante do meu nariz.

Pois mesmo dando bandeira, tem gente (como eu) que não se toca!

 

O Tamanduá Bandeira…

tamandua-bandeira2 

… pergunta:

 

Sobre artes e espetáculos…

leila-lopes

Quando uma moça bonita que saiu nua numa revista masculina diz que deseja ser reconhecida pelo talento e não pela beleza, isso quer dizer que ela pretende estudar teatro, fazer aulas de canto, dança, voz e se dedicar à carreira de atriz, participando de montagens desafiadoras e complexas para, um dia, ser capaz de interpretar com competência um personagem de Shakespeare, Boal, Beckett; um musical, uma peça de Arthur Miller ou de Eugene O’neil?

Sobre economia e negócios…

Wall Strret-Touro

Quando os mesmos ecomistas que previam um crescimento inunterrupto nos próximos anos e não tinham a menor idéia do tamanho da crise que se avizinhava dizem que tudo está bem, que agora a economia retomou o rumo certo, devemos nos acalmar, voltar à tranquilidade do período anterior e, como estão nos aconselhando, gastar nosso dinheiro sem medo de sermos felizes?

 

Sobre restaurantes e culinária…

passar-a-carne3

Quando alguém pede num restaurante que sua carne venha “um pouquinho passada do ponto” e o garçom assente com a cabeça sem pestanejar, isso é sinal de que ele levou a sério o pedido e que o cozinheiro sabe exatamente como fazer uma carne “um poquinho passada do ponto” ou significa, simplesmente, que a carne virá bem passada?

Escolinha de ditadores

In Aforismas e fragmentos on 21/09/2009 at 17:11

professor raimundo

Para quem tiver o mais remoto interesse em política e gostar de livros bem escritos, vale a pena ler “Diálogo no inferno entre Maquiavel e Montesquieu” de Maurice Joly (UNESP, tradução Nilson Moulin), publicado originalmente em 1864. A capa dura e o belo projeto gráfico mais atrapalham do que ajudam o leitor: parece que estamos diante de um clássico sisudo, mas não é o caso.

O texto, ágil e contundente, é um escrito de intervenção e não uma dissertação de filosofia política. Maquiavel e Montesquieu são apenas caricaturas que permitem ao autor criticar a ação política do ditador Napoleão III e de qualquer outro governante autoritário.

Maurice Joly, advogado e satirista.

Maurice Joly, advogado e satirista.

Quem conhecer bem a história francesa (não é o meu caso) certamente vai se deliciar com as referências veladas a medidas concretas adotadas pelo ditador ao longo de seu governo. Mas mesmo sem estas referências, o livro continua muito interessante.

Afinal, o embate que se trava ali, entre a impessoalidade das instituições democráticas e a pessoalidade dos governos autoritários, tem interesse perene. É difícil não pensar, por exemplo, em George Bush, Hugo Chávez e Berlusconi em vários pontos da leitura.

Preso sendo torturado em Abu Ghraib por soldado norte-americano

Preso sendo torturado em Abu Ghraib por soldado norte-americano

Claro, a transposição das críticas feitas pelo livro para nossa realidade não pode ser direta, afinal, estamos diante de um escrito do final do século XIX. Apesar disso, vários parágrafos parecem se encaixar como uma luva nos problemas atuais. Por exemplo:

“Cada um de meus atos, por mais que pareça inexplicável, procede de cálculos cujo único objetivo é a minha saúde e a de minha dinastia. Aliás, conforme digo em O príncipe, o que é realmente difícil é chegar ao poder; mais fácil é conservá-lo porque, em suma, basta eliminar aquilo que é nocivo e estabelecer aquilo que protege. O traço essencial de minha política, conforme já verificou, foi tornar-me indispensável. Destruí tantas forças organizadas quanto foi necessário para que nada pudesse funcionar sem mim, a fim de que os próprios inimigos de meu poder tremessem só de pensar em destruí-lo.”

Hugo Chávez, Presidente da Venezuela

Hugo Chávez, Presidente da Venezuela

Também:

“Aliás, certas fraquezas e mesmo certos vícios são tão úteis ao prícipe quanto virtudes. Você pôde constatar a verdade dessas observações depois do uso que tive de fazer ora da duplicidade e ora da violência. por exemplo, não convém acreditar que o caráter vingativo do soberano possa prejudicá-lo, bem ao contrário. se, freqüentemente, é oportuno que ele use a clemência ou a magnanimidade, é preciso que, em certos momentos, sua cólera pese de maneira terrível. O homem é a imagem de Deus e a divindade não tem menos rigor em seus golpes do que na misericórdia.”

(…)

“Peço-lhe a graça da luxúria. A paixão pelas mulheres serve a um soberano bem mais do que consegue imagina. (…) os homens são assim, gostam de ver esse viés em seus governantes. A dissolução dos costumes sempre fez furor, uma carreira galante na qual o príncipe deve superar seus iguais, como ele supera os soldados perante o inimigo. (…) Não me é permitido entrar em considerações demasiado vulgares, porém não posso evitar dizer-lhe que o resultado mais concreto da galanteria do príncipe é granjear a mais bela metade de seus súditos.”

berlusconi-e-miss-italia

Berlusconi e Miss Italia

As falas do personagem Maquiavel, ditas diante de um incrédulo Montesquieu, são dignas de uma escolinha de ditadores. No momento crucial do livro, o personagem Montesquieu diz que, “hoje em dia”, os métodos defendidos por Maquiavel seriam rechaçados pelas nações civilizadas.

Diante disso, Maquiavel procura demonstrar, em detalhes, que suas idéias são plausíveis para o mundo daquele século XIX. Há lugares em que todos estes “horrores” estão acontecendo, diz ele. Você não está se lembrando de alguém que conhecemos?

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Napoleão III

Apenas no final do livro, a ficha cai e Montesquieu se dá conta do que está acontecendo em seu país. Não por acaso, Joly foi preso em razão de seu livro. Não posso imaginar triunfo maior para um autor de sátiras políticas!

Mas voltando ao paralelo com os dias atuais, se pensarmos nas restrições ao habeas corpus, práticas de tortura, interrogatórios e prisões sem mandado, promovidas pelos Estados Unidos; nas práticas sexuais do Presidente da Itália, Berlusconi, e na conduta de Hugo Chávez, a ficha não cai de novo? Com o perdão do anacronismo, várias passagens do livro parecem ter sido escritas ontem.

Este “Diálogo no inferno entre Maquiavel e Montesquieu” também é importante por razões menos nobres, pois  serviu de modelo para uma das maiores fraudes da história universal: “Os protocolos dos sábios de Sião”. Sobre isso, leiam aqui: http://jornalivros.co.cc/?p=103.

Com o espírito em Deus

In Aforismas e fragmentos on 16/09/2009 at 16:54

Cesare Pavese cometeu o suicídio em 1950 deixando um livro inédito, Diálogos com Leucó (ed. Cosac y Naif), obra  arcaizante que adotou a forma clássica do diálogo para discutir, a partir de temas da antiguidade, questões fundamentais da existência humana. 

Escritor e poeta identificado com a esquerda, o livro rendeu-lhe críticas ácidas, afinal, nenhuma ideologia política é capaz de suportar a liberdade dos artistas. Nenhum regime autoritário suportaria um poeta como Lorca, diz Adorno em “Lírica e sociedade”.

cesare-pavese 

Matar-se, sob certas circunstâncias, é o ato livre por definição.

Não se deve, jamais, confiar nos artistas. Seu impulso para a pesquisa e para a mudança é sempre mais forte do que a disciplina das verdades cristalizadas, das existências serenadas, das conquistas celebradas, bens fundamentais para medir e proclamar a vitória política.

Na política atual, vence quem emburrecer ou naturalizar o outro a seu favor. A  política da sociedade emancipada abre mão da vitória e da derrota e de qualquer linguagem marcada pelas idéias de submissão e dominação, prêmio e punição. Ser vitorioso é ser capaz de indagar e tomar decisões em conjunto.

Gustav Klimt, Jurisprudenz (1903/1907)

Gustav Klimt, Jurisprudenz (1903/1907)

Por isso mesmo, qualquer sociedade atual passaria muito melhor sem os artistas que se alimentam da precariedade de todas as categorias e vivem do prenúncio do vir a ser.

Daí alguns deles acharem melhor, depois de muita incompreensão e chateação neste mundo, como fez Cesare Pavese,  ir adiantando o serviço. Melhor do que ser acusado de niilista ou nefelibata.

Um tiro, asfixia, copo de veneno, forca, atirar-se de um prédio: aceito sugestões.

Veja abaixo um trecho do diário de Pavese, “Ofício de Viver: Diário de 1935 – 1950” (Bertrand Brasil), que para mim explica, ainda que em parte, a necessidade e a delícia do suicídio.

*          *          *

Antoine Wiertz, Suicídio (1853)

Antoine Wiertz, Suicídio (1854)

5 de abril de 1945

É bom viver num lugar quando a alma esta em outro. Na cidade quando se sonha com o campo; no campo quando se sonha com a cidade. Em qualquer parte quando se sonha com o mar.

Parece sentimentalismo, e não é. Ao contrario, a prova é a allpervadingness da imagem.

Uma realidade somente é avaliada filtrando-se através de outra. Somente quando passa a ser uma outra. Eis o motivo de a criança descobrir o mundo através das transfigurações literárias ou lendárias ou, de qualquer modo, formais. Eis porque a “essência da poesia é a imagem”.

Daí se poderia deduzir que o mundo, a vida em geral, valorizam-se tão somente estando o espírito em uma outra realidade, sobrenatural.  Digamos, tendo o espírito em Deus. É possível?

Cesare Pavese

O vampiro

In Aforismas e fragmentos on 16/09/2009 at 12:34

Beber sangue

Tenho certa resistência a escrever histórias. Com pessoas, acontecimentos e lugares: histórias como as que lemos em romances ou assistimos em filmes. Textos teóricos e poemas não me incomodam tanto, mas reluto muito, apesar da vontade, em elaborar e executar um enredo. Ficção ou realidade, pouco importa.

Tenho pensado muito sobre isso, pois a vontade tem aparecido com muita freqüência. Não sei bem o que fazer, pois não consigo identificar o que me incomoda na posição de narrador. Seria fácil escrever um livro de poeta em prosa; fragmentado, imagético, sugestivo. Não quero. Pelo menos não quero isso agora. Gostaria de exercer a função de narrar.

Não adianta pensar em sua utilidade social. Não é isso que está em jogo, ao menos diretamente, em meu impasse. “Crise da narrativa”, “perda da unidade do mundo”, conheço bem essa conversa e os textos que resultaram deste imbróglio. Também conheço os narradores impávidos do mundo do entretenimento, ampla maioria no Brasil de hoje: noveleiros, escritores de roteiros hollywoodianos, autores de “teatrão”…

O que esses narradores teriam em comum?

The_Arab_Tale-teller

The Arab Tale-Teller, Horace Vernet (1833)

Talvez haja uma pista no seguinte: quem escreve uma narrativa precisa acreditar que suas histórias interessam a alguém. Deve haver uma fé fundamental; uma certeza de que vale a pena contar de certa maneira determinados acontecimentos, reais ou inventados. Um contador de histórias está sempre cercado de pessoas, encantadas, profundamente envolvidas em sua narrativa; adultos e crianças.

Narrar é saber ocupar este lugar de fascínio. Chamar a atenção para um foco e colocar o resto do mundo em suspenso. A narrativa é performática: é como fazer mágica, executar uma acrobacia, representar um papel. Há sempre um palco e uma platéia para a qual é preciso se exibir.

PAVÃO

Poesia e teoria não. Elas nascem por detrás de nossas cabeças, pois vivem da ruptura e do incômodo. Falam do que ninguém quer falar, dizem o que ninguém quer ouvir. São ações violentas, agressivas, contra-intuitivas, imediatas.

Narrar é envolver: mesmo quando fere, seduz. É como um assassino que esconde a arma debaixo do travesseiro ou dentro da gaveta ou no fundo do armário e precisa conduzir a vítima até lá. Narrar é como construir um trem fantasma.

Um poeta, um teórico, já chega atirando; anda armado até os dentes. Seu ódio é sempre inequívoco e seus golpes são sempre anunciados. Um poeta, um teórico, está sempre rosnando. O narrador sorri e faz crer que tudo pode estar bem antes de lacerar seu fígado. Ou antes de revelar algo de maravilhoso, mas esse tipo de surpresa nunca me interessou. Meu texto tem cheiro de morte ou riso ácido. E é sempre touro, nunca matador.

Magician

Não sei se um dia serei capaz de narrar, mas fui mágico durante grande parte de minha infância. Talvez ajude tentar lembrar porque resolvi, em certo momento, deixar minha maleta de truques empoeirando no armário;  talvez não. Talvez eu tenha me tornado essencialmente um sádico, seguindo um caminho sem volta. Um sádico incapaz de seduzir; um animal feroz e descontrolado que mata por existir.

Ou talvez narrar signifique mudar de lugar e ser matador, não touro. Conter-se para matar mais devagar; e preparar o golpe, e fazer um plano, e executá-lo passo a passo. Mas de uma coisa eu sei, acima de tudo, sempre foi sobre matar. Escrever para mim é desfazer certezas, incomodar, violar, agredir, dilacerar.

Provei do sangue humano e gostei: escrevo para que as pessoas se sintam pior; para as que sentem prazer em sofrer, na carne ou no espírito.

Vento, areia e sal

In Poemas para mim mesmo on 15/09/2009 at 11:54

José Rodrigo Rodriguez

O mar repete:
vento, areia e sal
as mesmas roupas,
não importa a ocasião.

Dia de festa, dia de trabalho:
o mar se cobre das mesmas
túnicas, a mesma luz
em variações previsíveis.

Contabilizamos seus tons
e as marés
com uma régua de acrílico:
vento areia e sal,
as mesmas dúvidas.

Tunica