José Rodrigo Rodriguez

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O Tamanduá Bandeira pergunta…

In O Tamanduá Bandeira pergunta... on 26/08/2009 at 14:52

Às vezes eu fico em dúvida diante das evidências mais inequívocas. Tem dias que eu não acredito na brancura do cavalo branco de Napoleão, desconfio que o Astro Rei não seja o Sol e que gemada seja feita de giz de cera amarelo com açucar. Nestas ocasiões, fico precisado da ajuda de pessoas capazes de me fazer voltar à realidade. Vou registrar neste blog algumas destas questões sob o nome “O Tamanduá Bandeira pergunta…”, sempre em busca de auxílio para ser capaz de ver aquilo que está diante do meu nariz. Pois mesmo dando bandeira, tem gente (como eu) que não se toca!

O Tamanduá Bandeira…

tamandua-bandeira2

… pergunta:

 

Sobre sexo e relacionamento…

bem me quer

Convidar uma mulher com que se tem saído por alguns meses para viajar durante cinco dias para outro estado brasileiro com o objetivo de apresentá-la para um casal de amigos muito queridos é sinal suficiente de que a relação está ficando mais séria?

 

Sobre política e economia…

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Pedir publicamente a renúncia do Presidente do Senado dias depois de seu partido ter apoiado o arquivamento de denúncias graves contra o mesmo sem renunciar ao mandato de Senador ou sequer fazer menção de sair do seu partido, é sinal de oportunismo com motivações eleitoreiras?

 

Sobre artes e espetáculos…

se beber nao case

Quando praticamente todos os jornais escritos, programas de TV, colunistas e críticos de cinema dizem, ao mesmo tempo, que um filme mediano é absolutamente excepcional e deve ser visto o mais rápido possível, isso seria um sinal de que eles teriam sido alvo de uma campanha publicitária agressiva por parte de um estúdio ou distribuidora?

 

O Tamanduá Bandeira pergunta, o Tamanduá Bandeira quer saber….

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Mamãe vai fazer uma lipo

In Visões da emancipação on 24/08/2009 at 13:55

Escrevi algumas paródias de historinhas infantis que estão sendo ilustradas pelo Alcimar Frasão, que edita a revista O Contínuo. A idéia é retratar crianças que se deparam com preconceitos sociais e sexuais e se espantam com isso. O ponto de vista é sempre o das crianças. Alcimar e eu seguimos trabalhando e procurando editoras. Vejam abaixo a primeira história, a primeira página e um estudo para as ilustrações do livro. Qualquer ajuda ou sugestão para a edição é bem vinda claro! 

*          *          *

Frasão 2

Ilustração de Alcimar Frasão para a primeira página do livro.

Minha mamãe está no hospital. Ela não está doente. Também não vai ter um bebê. Minha mamãe vai fazer uma lipo.

Ela disse que nem vai nem doer, mas eu não acredito.

“Vai ser um corte de nada. Fico só hoje no hospital e amanhã estou de volta”.

É tudo mentira! É tudo mentira! Já tomei injeção e sei como é!

Eu estava com febre e foi um homem de branco lá em casa. Ele disse para eu não me preocupar.

“Não vai nem doer, é rapidinho! Uma picadinha de nada…”.

Acreditei nele e nem corri. Fiquei esperando quietinha, quietinha… Era tudo mentira! Doeu de verdade e ficou um baita calombo! Será que vai doer na mamãe e ficar um baita calombo? Um baita calombo no bumbum?

Frasão 3

Estudo de Alcimar Frasão para a figura da menina.

“Por que você vai ao médico fazer uma lipo, mamãe? O que tem no seu bumbum? Você está doente?”.

“É para eu ficar mais bonita, querida! Vou ficar mais bonita!”.

“Vamos emagrecer essa bunda gorda, não é meu amor?”, disse papai.

“Mas você é bonita mamãe! Você não é gorda! E o seu bumbum não é feio… É? E o meu? É feio? Eu também preciso fazer uma lipo?”. 

“Que bobagem, amor! Seu bumbum é lindinho, filhinha”.

“Mas e quando eu ficar mais velha? Vou fazer uma lipo também? E vai doer muito?”.

“Está me chamando de velha, menina?”.

Papai está pagando uma fortuna por essa lipo, ele disse! Uma verdadeira fortuna!

“Estou comprando esse bumbum novo para nós dois, não é amor?”.

Essa eu não entendi. Um bumbum novo para o papai também? Ele também vai fazer uma lipo? Ele também vai para o hospital?

E quem vai cuidar de mim?

Mamãe está contente da vida. Nem liga se vai doer. Papai está contente, rindo, rindo! Agora eles estão no hospital e só amanhã vêm para casa. Mas será que vai doer?

Por que mamãe tem que fazer essa lipo? O bumbum dela é feio? Eu acho o bumbum bonito. Mas bumbum tem que ser bonito?

Será que ela já vai voltar?

Frasão 1

"O sono da razão produz monstros..." Ilustração de Alcimar Frasão para a epígrafe do livro.

Resistir ao olhar do poder

In Aforismas e fragmentos on 24/08/2009 at 12:50

Resenha do livro “Visões do Cárcere” de Jutahy Pesavento, Editora Zouk (no prelo), a ser publicada na Revista NORTE.

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Levem a sério o título deste livro de Sandra Jutahy Pesavento: “Visões do Cárcere”. A encadernação de capa dura faz lembrar um álbum de fotos e indica com precisão o que o leitor irá encontrar: uma visão privilegiada da Casa de Correção de Porto Alegre no final do século XIX a partir do álbum fotográfico do diretor do laboratório de Antropologia Criminal do estabelecimento, Doutor Sebastião Leão.

Peço desculpas aos especialistas e à autora, mas não vou comentar detalhadamente o texto que acompanha as fotos. Informativo e esclarecedor, ele introduz o leitor às teorias criminológicas da época e conta as circunstâncias em que o álbum foi produzido. Em nome da ciência, o estudioso e diligente Sebastião Leão retratou, para os fins de seus estudos criminológicos, boa parte dos detentos recolhidos ali entre 1874 e 1900. Mesmo sem a leitura do texto, a visão das fotos reproduzidas no volume é suficiente para justificar sua publicação.

Ao primeiro olhar, elas se mostram triviais e monótonas. Tiradas sempre do mesmo ângulo construído por um ânimo classificatório, longe de qualquer preocupação estética, elas são, grosso modo, equivalentes às atuais fotos 3X4.  Foram pensadas por uma razão burocrática despreocupada com a humanidade de seus modelos. Cada detento é um caso cuja função é comprovar uma lei geral, por isso eles são submetidos a uma forma padronizada concebida para abstrair seu modo de olhar, de se mover e de pensar.

Uschi Obermaier

Uschi Obermaier, modelo alemã, ícone nos anos 60. Militante comunista (participou da Kommune 1, comunidade criada para questionar a família burguesa, que durou de 67 a 69), deixava-se fotografar nua e fumando maconha.

Uma boa foto é capaz de mostrar mais do se poder ver a olho nu. A foto congela um gesto, um olhar, uma atmosfera que, a depender do talento do fotografo, será capaz mostrar a alma do retratado. Ao congelar o gesto, o amplifica. Pense na célebre foto de Che e seu olhar fixo num lugar que parece estar para além desse mundo. Pense nesta foto e na visão da utopia congelada num olhar que fez sonhar gerações de socialistas.

O olhar de Che é um triunfo da relação entre o fotógrafo, Albert Korda, e seu modelo. Che ofereceu ao fotógrafo aquele olhar e este soube captá-lo e selecioná-lo entre as tantas fotos tiradas naquele dia. O modelo não é puramente passivo, também é autor de sua foto, pois s se expressa diante da câmera, encenando sua identidade.  A capacidade de oferecer-se para a câmera não é um talento trivial: os salários pagos às estrelas da moda são um sinal claro disso. Sua capacidade de encenar diante do fotógrafo é crucial para o sucesso da foto. Para um modelo não profissional, vale o mesmo: a foto deve resultar da colaboração entre modelo e fotógrafo e sua autoria, a rigor, deveria ser partilhada entre os dois.

As fotos que o leitor irá encontrar em “Visões do Cárcere” foram produzidas segundo outra lógica. O modelo não se oferece à câmera: está ali à força. A câmera rouba-lhe a imagem e viola sua intimidade: não está ali para prestar-lhe uma homenagem ou para captar sua expressão mais singular. A relação entre modelos e fotógrafo é de subordinação: eles estão perante o poder e não diante de um convite para encenar sua identidade. Nesse sentido, o plural do título do livro  – ‘‘visões” – pode ser enganador. A obra parece apresentar um olhar apenas, cujo poder rouba do indivíduo sua singularidade e o reduz à passividade.

A face mais comovente de “Visões do Cárcere” é perceber, após olhar e olhar tantas fotos aparentemente repetidas, construídas com a pobreza artística de uma razão opressiva e homogeneizante, que os indivíduos resistem. Resistem à força bruta da burocracia que aplastra e anula; resistem ao poder do fotógrafo que crava seu corpo na cadeira, sob a luz instrumental da ciência; resistem ao encarceramento de sua imagem numa forma incapaz de captar a liberdade. Os indivíduos resistem e desafiam o poder ao imprimir sua marca em cada uma das fotos que tive o privilégio de olhar.

Difícil entender como conseguiram fazer isso. Talvez o olhar, alguns de desafio, outros de desconforto, outros de medo. Quase todos os modelos usam uniformes da prisão, que ressaltam ainda mais as pequenas nuances de cada imagens, (co-) produzidas contra a vontade do poder. Tanta repetição confere a cada nuance um tom dramático. E o livro nos convida a procurá-las ativamente ao imprimir, ao lado das fotos, os nomes e as histórias dos modelos. Ficamos sabendo, por exemplo, que a figura da capa, com seu olhar impressionante,chama-se José dos Santos, tem 56 anos e é solteiro, jornaleiro e analfabeto; um homicida condenado a sete anos de prisão.

visoes do carcere

Mergulhemos em seu olhar pensando no olhar de Che retratado por Korda. Os dois, de maneiras diferentes, oferecem à câmera seu desafio ao poder. O primeiro desafia o mundo, encenando a si mesmo diante de uma câmera, cuja função é captar sua essência. O segundo desafia a câmera em si mesma, para marcar seu inconformismo diante da impossibilidade de encenar sua imagem com autonomia. O retrato de José é o registro da perda da liberdade e, supostamente, do poder exprimir a si mesmo. Mas tal perda, apesar da relação de submissão entre modelo e fotógrafo, nunca é completa. Algo resiste à forma instrumental e burocrática que ameaça transformá-lo em mera coisa. E o que é isso que resiste? O que seria este algo? Na falta de nome melhor, podemos chamá-lo simplesmente de “humanidade”.

Poema aberto para a candidata Marina Silva

In Poemas para... on 19/08/2009 at 18:24

Basta ser gente que veve

José Rodrigo Rodriguez

Marina Silva

A presidente Marina 
protegerá as plantinhas
que tanto bem sempre fazem
a nossa amada Terrinha,
mas também vai defender
Darwin seja equiparado
ao criacionismo ensinado.

Terra criada por Deus
num design inteligente,
ciência e fé irmanadas
numa equação coerente
Marina Silva e sua fé
moverá rios e montanhas
somando várias façanhas.

Do aborto irá combater
discriminalização
atrás das grades quer ver
as mulheres da nação
que praticarem o crime
de escolher certas vias
que Deus veda à moças pias.

BurningCross

Para votar na carola
Ministra do meio-ambiente
desejo ser informado
e dito para toda gente
se o Deus da pia Marina
contrário a Darwin e o aborto
é crido por todo povo.

É o Deus dos magnatas
É o Deus dos macumbeiros
É o Deus dos corinthianos
E o Deus dos curandeiros
Deus de índios, fashionistas
Deus de pobres e cristãos
Judeus de toda nação.

Deus de rockers pagodeiros
De japoneses crioulos
Deus de Juízes e réus
De carcamanos e mouros
Deus de peruas montadas
De gays e machos renhidos
Sem vergonha e sem prurido.

pro choice

Se o tal Deus não for assim
acolhedor e inclusivo
desculpe a Ministra pia
se a ofende o que digo
deixe o seu Deus bem de fora
de campanha ou discussão
sobre os rumos da nação.

Deixe quietinho na igreja
este Deus meio esquisito
excludente e assustador
e levemente maldito
que não acolhe essa gente
esse povo misturado
do catinga e do roçado.

Deixe quietinho na igreja
este Deus meio gozado
que aceita uns, mas não outros
e que fica aperreado
com gente tão diferente
não gosta de discordância
não prima por tolerância.

darwin_evolucao_2

Se Marina vier mesmo
a governar o Brasil
espero que se aperceba
que neste céu azul anil
qualquer carola é bem vindo
também ateu ou herege
basta ser gente que veve.

Aforismas e fragmentos cômicos (da série “Fora da lei”)

In Aforismas e fragmentos, Fora da lei on 17/08/2009 at 16:28

Aviso prévio

Na tradição romântica o fragmento deveria permitir a intuição do todo. Tal pretensão será mantida nestes escritos, ao menos no que se refere a algum aspecto relevante do mundo em que vivemos. Dar conta do “todo”; do todo mesmo, hoje em dia, seria querer demais. O estado atual das ciências humanas e sociais diz que todo mundo pensa, até os povos e sujeitos os mais improváveis. Tal fato complica bastante qualquer pretensão de universalidade.

Mas seja como for, sobre as leis e sobre o Direito, no Brasil, meu assunto aqui, trata-se apenas de dizer o óbvio. Por isso mesmo, estes são fragmentos rebaixados: permitem uma intuição muito profunda sobre o que está diante de nossos narizes. E pretendem indicar uma falta: a falta consciência jurídica, consciência a qual, como todas as outras, em plena decadência no mundo ocidental.

Este fenômeno, com toda a certeza, é uma distinção típica de classe, embora eu não saiba exatamente de qual delas. Confesso estar um pouco confuso quanto a este ponto, por isso, deixo tal juízo para meus eventuais leitores e para os estudiosos do tema. A mim, atribuo apenas o ônus de ruminar a questão, utilizando-me dos dois estômagos que ainda me restam.

*          *          *

III. Burocratas e contadores

Os artistas costumam odiar burocratas e contadores, pois reconhecem neles a falência do conceito de gênio. É um trabalho do ressentimento. Os clichês sobre o tema cristalizam a raiva e exigem que se imponham sofrimentos lancinantes a todos aqueles ousam repetir. Como se criar não tivesse nada a ver com isso. Como se as leis fossem externas à imaginação.

IV. Os gênios

O verdadeiro artista ama planilhas. Na arte de hoje, há gênios demais e contadores de menos.

IX. O professor

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Gravura da série Ir (2007), Marco Buti

Alguns artistas utilizam cada vez menos elementos para compor suas obras. Nenhuma figura, algumas linhas e pontos. Marco Buti é um deles. Trata-se de um impulso didático. A arte precisa ser reapresentada a alguns de seus materiais. Há leis sobre traçar uma linha, no metal ou no espaço. Ademais, como todos os seres humanos, linhas riem e choram.

Direito e fogo

In Direito e Teoria Critica on 17/08/2009 at 14:54

A experiência jurídica inglesa inspirou Franz Neumann na escrita de O Império do Direito. O direito inglês atesta a sobrevivência de uma ordem jurídica a transformações sociais profundas sem rupturas definitivas, mas com mudanças institucionais radicais. Neumann mostra que é preciso submeter os conflitos sociais à forma direito para não destruir a sociedade ou criar uma ordem totalitária. Fazê-lo, não implica em abdicar da emancipação humana. 

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The Burning of the House of the Lords and Commons, 16th October (1834), J. M. W. Turner

As sociedades nascem da formalização de forças saturninas, sempre anárquicas e destruidoras. Na Oréstia de Ésquilo, em troca de poupar a pólis e abrir mão do desejo de vingança, as Erínias são convidadas a habitá-la, mas sob a forma de Eumênides. Abrem mão da violência em favor da deliberação, formalizada no direito. O fogo que consome o Parlamento no quadro de Turner pode ser visto como a alegoria do embate entre estas duas forças antagônicas, compostas da mesma luz. Mas quem queima ali é a razão.

E não queima como em Heráclito, pois para ele, o logos é quem queima e o logos é a madeira, é a chama, é o pensar nos dois. A razão não. Ela queima com suas instituições, pois é preciso efetivá-la. É preciso pôr a razão aqui, ali e acolá: as coisas em si são menos do que nada. Pôr a razão e tirar a razão: num gesto, os homens fabricam as suas leis ou liberaram suas fúrias. O incêndio do Reichstag, Berlim, 11 de setembro de 1933, o incêndio da Câmara dos Lordes e dos Comuns, Londes, 16 de outubro de 1834: a razão, as instituições são frágeis e queimam fácil.

É preciso domar o fogo para ser capaz de acendê-lo novamente por meio de um ato deliberado. Formalizar as Erínias é acender o direito contra a violência; transformar o fogo destruidor no desejo de deliberar, dentro e fora das paredes do Parlamento. A existência do direito faz prevalecer a comunicação sobre a vontade de destruir, a razão sobre a vontade de poder. Sua função é promover a metamorfose da fúria em desejo de razão que, como todo desejo, também queima como a paixão. Mas não queima como um incêndio e sim como um motor.

Oh metade arrancada de mim! [Underground nos anos 80 e 90]

In Rock-poesia-politica on 14/08/2009 at 12:52

“Que tipo de som você gosta?”

“Muitas coisas, mas cresci ouvindo Rock. Isso é o básico.”

“Legal? O que gosta de Rock brasileiro?”

“Bom, eu adorava o Vzyadoq Moe. Ouvi muito os primeiros discos do De Falla, Violeta de Outono. Putz, também aquela coletânea em homenagem ao Arnaldo Baptista, “Sanguinho Novo”. O Fellini tocando “Loki”… Eu adoro aquilo. Olho Seco. Eu não era punk, mas achava impressionante o som deles. Comecei por aí…”

“Ahn..? O que?”

confuso

Tive diálogos como esse dezenas de vezes nos últimos tempos. A partir deste ponto da conversa, a saída é o silêncio, a mudança brusca de assunto, ou a menção de bandas como Titãs, Paralamas, Legião Urbana que eu NÃO ouvia e NÃO gostava na época. Hoje, mais tolerante com o mundo POP, até curto. Mas para quem gostava de Rock entre o final dos anos 80 e anos 90, esse povo fazia música POP e ia ao Chacrinha para ganhar dinheiro. Não havia nada de transgressivo naquilo. Sonzinho coxa para as massas. Renovaram o POP, mas eram a retaguarda do Rock.

E os caras podiam cheirar e fumar baseado o quanto quissessem (desde quando ser louco é trangressão?): seu som era comercial na veia. Fácil de ouvir, fácil de engolir, fácil de mostrar para a mãe e para o pai. Talvez à exceção do IRA! (parente em primeiro grau da cena underground paulistana), Lobão e Barão Vermelho, havia tanto roquenroll no assim denominado “Rock Brasil” quanto existem pessoas ponderadas e conciliadoras na Al-Qaeda. Que existem, existem, mas tem que procurar com lupa.

Sempre que mantenho diálogos como o que mostrei acima, é difícil evitar a sensação de ter tido meu passado roubado. A história do Rock brasileiro tem sido escrita apenas do ponto de vista do mainstream, do que fazia sucesso, especialmente depois dos anos 70, quando se forma, de fato, a indústria cultural.  A cena underground dos 80 e 90 (rock e punk), o rock psicodélico brasileiro dos anos 60 e 70 (um mundo a ser descoberto) e tantas outras coisas, são deixadas de lado, seja porque as pessoas têm preguiça de pesquisar, seja porque querem apenas falar do que pode dar certo.  Ou do que pôde dar certo. Traçam uma linha reta que vem da Jovem Guarda (outro movimento POP) , passa pela Blitz e termina na cuticuti da Mallu Magalhães, sem olhar atalhos ou desvios. Mas a história não é feita de linhas retas.

Walter Benjamin: sem linhas retas.

Walter Benjamin: sem linhas retas.

O resultado é a predominância do POP, da música fácil e comercial, na história do nosso roquenroll. Do ponto de vista pessoal, isso resulta em eu não ter com quem partilhar e conversar sobre coisas que tomavam (e ainda tomam) muito tempo da minha vida. Pois à exceção de alguns gatos pingados, quase ninguém sabe que essas banda existiram e fizeram parte de uma cena forte, ao largo do “Rock-POP-Brasil-COXA”, cuja história ainda não foi contada. Começa a haver voluntários para desfazer esta hegemonia da musica facinha: CLIQUE AQUI e leia o texto do Diogo no EU GARIMPO. Algumas destas bandas voltaram a tocar, voltaram a despertar interesse. Shows recentes de Fellini, Smack, Mercenárias, Harry, Violeta (que nunca parou). Talvez a ficha comece a cair agora, quinze anos depois…

Seria genial.  Especialmente neste momento, em que a internet e o barateamento dos custos de gravação abrem espaço para se fazer música não comercial sem precisar vender a mãe e/ou as cuecas. Casas de show aparecem, um novo circuito, talvez alguma grana, mesmo que não sejam milhões. Todos sabem que o undergound praticamente morreu, ao menos no Brasil, lá pelo final dos anos 90. O que temos hoje, quase sem exceção, são bandas que almejam fazer sucesso e bandas que já fazem sucesso.

Convenhamos: quando o projeto de vida de alguém, logo de saída, é aparecer na Globo e sair na Veja, tudo está perdido. Afinal, ninguém sai na Veja ou aparece na Globo impunemente: tem que diluir a mensagem, simplificar a expressão, situar-se rente ao lugar comum, falar de coisas anódinas com todo o cuidado para não ofender a maioria e perder audiência, ou seja, é preciso virar um coxa.

coxinhaOK-thumb

Nada de errado com isso, só não dá para entrar nesse jogo e reinvindicar o título de transgressor. Lamento, mas não dá mesmo. Não se pode ter tudo na vida. Como eu gosto de diversidade na música, acho que o mundo fica mais interessante quando mainstream e underground convivem, trocam experiências, modificam um ao outro. Aparentemente, isso está acontecendo de novo, ou pode vir a acontecer. Talvez eu esteja otimista demais…

Mas o fato é que se pararem de surgir bandas como Velvet Undergroung, The Stooges, Einstüerzende Neubauten, Cabaret Voltaire, Sonic Youth, Vzyadoq Moe,  Throbbing Gristle, Olho Seco, As Mercenárias, Smack, o mundo vai perder o sentido para mim e o Rock vai ser dominado pelos Dinhos Ouros Pretos dessa vida, hoje reencarnados ainda em vida nos EMOs, na cuticuti da Mallu e em Tatá Aeroplano. Não me entendam mal: todos têm o direito de existir e se divertir como músicos de roquenroll. O que me assusta é a perspectiva de padronização e “coxinização”.

zie e zii

Por isso é importante contar essa história esquecida. De novo, Caetano Veloso pegou as coisas no ar.  No momento crucial, percebeu, com “Cê” e “zie e zii”, que um dos modelos disponíveis de transgressão  está nesse veio, o undergound dos anos 80 e 90, que ocorreu no mundo todo e no qual o Brasil tem uma honrosa inscrição. Os caras criaram selos, fizeram revistas, fundaram clubes, ou seja, se apropriaram dos meios de produção cultural para fazer uma música diferente, ao largo dos esquemões das gravadoras. Ouçam as bandas que acabei de mencionar e tantas outras, que vocês vão descobrir se forem fuçando por aí, depois digam se estou errado.

O mundo está melhorando!

Mas será mesmo?

Para Fabíola e Felipe

O poema deve resistir à inteligência, quase com sucesso

In Poemas para mim mesmo on 10/08/2009 at 3:47

Homem carregando coisa

Wallace Stevens

Tradução: José Rodrigo Rodriguez

O poema deve resistir à inteligência
Quase com sucesso. Ilustração:

Uma figura morena na noite de inverno resiste à
Identidade. A coisa que ela carrega resiste

Ao sentido mais necessário. Aceite-as, então,
Como secundárias (partes quase imperceptíveis

Do óbvio todo, partículas incertas
Do certamente sólido, do primariamente fora de dúvida,

Coisas flutuando como os primeiros cem flocos de neve
De uma tempestade que devemos suportar a noite toda,

De uma tempestade de coisas secundárias),
Um horror de pensamentos subitamente reais.

Devemos suportar nossos pensamentos a noite toda, até
O brilhante óbvio ficar no frio, imóvel.

Man carrying thing

Wallace Stevens

The poem must resist the intelligence
Almost successfully. Illustration:

A brune figure in winter evening resists
Identity. The thing he carries resists

The most necessitous sense. Accept them, then,
As secondary (parts not quite perceived

Of the obvious whole, uncertain particules
Of the certain solid, the primary free from doubt,

Things floating like the first hundred flakes of snow
Out of a storm we must endure all night,

Out of a storm of secondary things)
A horror of thoughts that suddenly are real.

We must endure our thoughts all night, until
The bright obvious stands motionless in cold.

Toda emancipação será (também) poética

In Direito e Teoria Critica, Visões da emancipação on 09/08/2009 at 14:04

As imagens que fazemos do mundo delimitam nosso campo de ação.

Thinking_Out_Side_The_Box

Um amigo tenta convencer o outro a pular de pára-quedas com ele, idéia que parece ao primeiro completamente descabida. Explica como funciona o equipamento, explica os procedimentos de segurança, esclarece sobre os riscos e os principais motivos de acidentes. Aos poucos, o que parecia absurdo vai se tornando mais palpável, mais possível, mais desejável.

Nesta "Natureza morta com Bíblia" de 1885, Van Gogh coloca, lado a lado, a Bíblia e Germinal de Zola, romance que conta um levante de trabalhadores em minas. Trata-se de contrapor o quietismo do cristão, que espera a emancipação em outro mundo, com a ação revolucionária da classe operária.

Nesta "Natureza morta com Bíblia" de 1885, Van Gogh coloca, lado a lado, a Bíblia e Germinal de Zola, romance sobre um levante de trabalhadores em minas de carvão. Contrapõe o quietismo do cristão, que espera a emancipação em outro mundo, com a ação revolucionária da classe operária.

Os sindicatos começaram a agir na Europa como entidades ilegais, portanto, podiam ser combatidos com força física. As atividades de greve eram constantemente reprimidas e resultavam em mortos e feridos. O reconhecimento dos sindicatos como associações lícitas nascido de sua militância alterou esta situação em razão de uma mudança de atitude em relação às demandas da classe operária. Certamente, romances como Germinal de Zola, e a “USA Trilogy” de John dos Passos, além de “A Situação da Classe Operária…” de Engels ajudaram neste processo.

John Kirby, Self Portrait, 1987

John Kirby, Self Portrait, 1987

A banda The Kinks escreveu uma canção em 1970 chama da Lola que trata de um affair entre um rapaz e um transexual. Até hoje, a visão dos transexuais presentes na cultura estão quase sempre ligadas à comédia ou ao mundo policial. Eles são figuras risíveis ou perigosas, que carregam giletes e se cortam quando perseguidas pela polícia. Ao falar de outra maneira sobre eles, a banda abriu um espaço na cultura para uma visão dos transexuais como figuras interessantes, sedutoras e felizes.

As imagens tiram as coisas do oceano da indeterminação.

Opor às figuras impostas pelos meios de produção cultural e pela opinião convencional, contra-figuras que preservem a experiência da autonomia e da singularidade por ampliar o espaço da experiência humana no mundo.

vivapasioneweb

É preciso desenvolver estratégias para desenvolver e preservar a imaginação que aponta para outro mundo possível, pois é capaz de realizar este trabalho positivo de construção de figuras contra a normalização cultural.

É preciso desenvolver uma militância preocupada com o mundo das imagens, constitutivas das práticas sociais.

Constituir novas práticas, criar novas imagens: toda emancipação será, no fim das contas, positiva e alegre. Alegria poética a partir da imanência do material artístico, jurídico, político, social, institucional…

Chagal


(LEMBRETE: Ampliar o conceito adorniano de “material” para abarcar o material institucional e, assim, pensar poeticamente a pesquisa e o trabalho em Direito: criar instituições cada vez mais inclusivas para efetivar de maneira nova e renovada – a cada nova demanda por inclusão – as tensões entre liberdade, igualdade e fraternidade. Juntar o resultado com a revisão do princípio da soberania popular formulado por Rousseau e reformulado por Franz Neumann e Jürgen Habermas. Mostrar que tal reformulação é obra de um pensamento de tipo poético a partir do material jurídico e filosófico. Entender como ele foi possível. Escrever uma poética das instituições. Por que a mimese teria se refugiado apenas na arte? Pesquisar melhor as formas institucionais que surgem dia a dia…)

Uma letra “avant la lettre”

In Rock-poesia-politica on 09/08/2009 at 5:25

A banda The Kinks sempre teve urgência em falar dos problemas de seu tempo de forma direta, num tom que os faz soar como uma banda punk avant la lettre. Menos sofisticados do que os Beatles e os Rolling Stones, de quem são contemporâneos, ganham em contundência e, por isso mesmo, parecem ter envelhecido melhor do que a maior parte dos artistas de seu tempo.

A revolução punk que mudou o rock nos anos 70 para torná-lo musicalmente mais simples e direto, teve nos Kinks um precursor imediato, fato reconhecido pelos diversos covers de suas músicas, que não param de ser gravados. Os Kinks sempre se preocuparam em comentar seu tempo, tanto no campo político quanto no campo dos costumes. A letra que traduzimos abaixo é um exemplo claro disso.

História de um affair entre um jovem e um transexual, trata de um assunto controverso até os dias de hoje com a coragem de falar claramente de desejos que, na maior parte das vezes, permanecem escondidos. Afinal, transsexuais ou são motivo de piada, casos de policia (com giletes escondidas na gengiva) ou performers divertidos, mas nunca pessoas interessantes, sedutoras e humanas. Muitos de vocês já devem ter cantarolado seus versos sem se ligar na letra da sensacional Lola.

Eu a conheci num clube no velho Soho
Onde a champanhe tem gosto de Coca Cola
Ela se levantou e me convidou para dançar
Eu perguntei seu nome e numa voz cavernosa, disse: Lola

Bom, eu não sou exatamente um atleta
Ela me apertou forte e quase quebra minha espinha
Oh minha Lola!

Bom, eu não sou idiota, mas eu pude entender
Ela falava como homem e andava como mulher
Oh minha Lola!

Bom, bebemos champanhe e dançamos a noite toda
Sob a luz de velas elétricas
Ela me pegou, me pôs nos seus joelhos
E disse, meu querido, vem para casa comigo.

Bom, eu não sou um cara assim tão passional
Mas ela olhou nos meus olhos, quase me apaixonei por minha Lola

Eu a deixei para lá
E andei até a porta,
Eu caí no chão
E fiquei de joelhos
Então olhei para ela e ela olhou para mim…

Bom, queria que as coisas ficassem assim
É assim que eu queria deixar as coisas para minha Lola
Garotas serão garotos e garotos serão garotas
Este é um mundo virado, confuso e misturado, mas não para Lola

Bom, eu tinha saído de casa há uma semana
E eu nunca tinha beijado uma mulher na vida
Mas Lola sorriu e pegou na minha mão
E disse, meu garoto, vou te fazer homem.

Bom, eu não um sou cara assim tão másculo
Mas eu sei o que sou e sou feliz por ser homem
Também Lola.

Tradução: José Rodrigo Rodriguez

Lola

I met her in a club down in old soho
Where you drink champagne and it tastes just like cherry-cola [lp version:
Coca-cola]
C-o-l-a cola
She walked up to me and she asked me to dance
I asked her her name and in a dark brown voice she said lola
L-o-l-a lola lo-lo-lo-lo lola

Well Im not the worlds most physical guy
But when she squeezed me tight she nearly broke my spine
Oh my lola lo-lo-lo-lo lola
Well Im not dumb but I cant understand
Why she walked like a woman and talked like a man
Oh my lola lo-lo-lo-lo lola lo-lo-lo-lo lola

Well we drank champagne and danced all night
Under electric candlelight
She picked me up and sat me on her knee
And said dear boy wont you come home with me
Well Im not the worlds most passionate guy
But when I looked in her eyes well I almost fell for my lola
Lo-lo-lo-lo lola lo-lo-lo-lo lola
Lola lo-lo-lo-lo lola lo-lo-lo-lo lola

I pushed her away
I walked to the door
I fell to the floor
I got down on my knees
Then I looked at her and she at me

Well thats the way that I want it to stay
And I always want it to be that way for my lola
Lo-lo-lo-lo lola
Girls will be boys and boys will be girls
Its a mixed up muddled up shook up world except for lola
Lo-lo-lo-lo lola

Well I left home just a week before
And Id never ever kissed a woman before
But lola smiled and took me by the hand
And said dear boy Im gonna make you a man

Well Im not the worlds most masculine man
But I know what I am and Im glad Im a man
And so is lola
Lo-lo-lo-lo lola lo-lo-lo-lo lola
Lola lo-lo-lo-lo lola lo-lo-lo-lo lola