José Rodrigo Rodriguez

DEUS!

In Poemas para mim mesmo, Uncategorized on 16/11/2018 at 19:38

Que alguma coisa me comova e passe a

ativar uma certa eletricidade sem metáfora,

faíscas, flash, frio: são aproximações conhe-

cidas mas é que por dentro o fogo, se hou-

ver, vive sem oxigênio: não é bem assim,

não é bem isso, mas como seria? A carne pen-

sando em alguma coisa que eu não sei nem

mesmo o que é enquanto eu como, danço e

ando, por trás das metáforas e por trás do pen-

samento, a carne lembrando  vibrando em ele-

tricidade, sem parar, sem cessar, enquanto eu fa-

lo ou mesmo sem nenhum movimento, alguma coi-

as me comove e eu me explico como, assim, sem

discurso.

Está lá, está lá e nunca houve dúvidas e muito menos

reflexão em qualquer nível: está lá, está como uma

bolha de água ou um câncer, a memória das células

degeneradas em fricção que passam a digerir os pró-

prios excrementos, em um tom menor ou um tom

maior, está lá, está lá, pulsando, ardendo, um frio na

barriga, um arrepio: são aproximações, alguma coisa

que me comove e como um câncer entra em mim em

comunhão, mas Deus! Eu sempre me lembro ou é a car-

ne que se lembra e eu, eu apenas encarno, como se vi-

ver fossem assim, em algum lugar, tão fora de mim.

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Quanta

In Poemas para mim mesmo, Uncategorized on 16/11/2018 at 0:07

Escorrendo sobre o mesmo corrimão parado em

suporte em atrito com as tantas mãos macias e

macias e maciais e todos os dias e todos os dias se-

riadas aos milhares, paralelamente uma após, após

a outra e a outra e a outra escorrendo aglutinadas

como um bloco sólido de carne áspera, um e outro,

uma e outra, sempre na mesma hora e esta que é a

minha dando lugar para aquela que não é ou que seria

no mesmo tempo, no mesmo horário, nos trens atrasados

ou bem no tempo, mãos e mãos e mãos amalgamadas pe-

lo ininterrupto movimento que as torna exatamente o

mesmo

e

imóveis.

 

Quantos de nós passando exatamente pelos mesmos e mesmos

lugares e sempre novamente como se fossemos absolutamente

necessárias para que alguma coisa de fato acontecesse ou ao me-

nos assim mesmo pensando que algo se seguirá e é necessário estar

lá simplesmente estar lá e tomar parte, ali, a caminho, alguns quilô-

metros, sempre, também todos os dias, às vezes com vagar e as ve-

zes sem calma, sem pensar ou absortos em pensamentos que tam-

bém passam sobre o asfalto seco que podemos ver agora do alto e

as nossas pernas a que se seguem outras pernas, a mesma dança, o

mesmo balé sucessivo que as solidifica em uma massa úmida essa

quantidade ininterrupta de nós mesmos em uma mesma e imóvel

história, mas quem? Quem pode mesmo? Dizer que é?

Entre as coisas

In Poemas para mim mesmo, Uncategorized on 14/11/2018 at 13:35
Está entre as coisas de que eu duvido
 
esta mão, a minha mão, ser minha
 
mesma e neste compromisso de sentir
 
o mais débil toque, mas mesmo enquanto
 
– objeto ausente – um ferimento se risca
 
ao longe e iguala, quem esteve e quem
 
embora, estivera.
 
 
Não é uma cópia, pois
 
é o mesmo som bem no mesmo
 
ponto: e o que haveria de especial
 
em mais um corte e tantos mais
 
na mesma pele estendida e tesa
 
sobre os uníssonos ossos feitos sem
 
pre das mesmas partículas? Em uma
 
outra montagem? Em outro dia? Mas?
 
Não seria ainda? Nada mais
 
do que uma cópia?
 
 
Quem sente esta dor sou eu mesmo?
 
Ou quem esteve e quem estivera, duas
 
passagens de ida e de volta, a pressão
 
que a pele devolve, aposta sobre a derme,
 
animal celeste, de madrugada ou fosse dia,
 
bem pouco me importa, pois quem ficou ou
 
já está de partida e quem estaria tocando o
 
ponto que, um dia, imaginei que fosse, assim,
 
tão preciso?
 
 
Estar entre as coisas de que eu duvido:
 
o que eu sei não é nada mais do que
 
este corpo mantido em comum balbucia
 
nas ondas que arrepiam sua derme mediante
 
a compressão do tempo em uníssono, tudo, todos,
 
este lugar, nesta hora, nesta impressão
 
das mãos abertas, curvas e vazias as
 
mãos quaisquer e sempre,
 
nem minhas.