Como é que alguém se vende
por cinco ou dez ou trinta por cento
de um ou dez ou cem milhões?
Mas tanto faz, os fins justificam
os meios e ninguém enriqueceu
ou todo mundo ao mesmo tempo.
Há lugar para a ética, algum princípio
que envolva evitar receber dinheiro
sem trabalho e sem fundamento?
Mas pensando bem, é preciso ganhar
a eleição para evitar que os verdadeiros
ladrões tomem o poder: somos os melhores.
Eu me sinto muito ingênuo quando
leio notícias com nomes de amigos
e converso com todos aqueles que criticam
o sistema brasileiro de financiamento
de campanhas: todos sabem o que fazer,
mas não podem deixar de jogar o jogo.
Jogar o jogo, até que as regras mudem,
até lá, um pouquinho para mim, outro
para o caixa dois, vistas grossas daqui
e de lá, até as vésperas da eleição,
denuncismo e indignação ética, contas
no exterior e pagamentos indiretos.
A ética está em não exagerar, em não
tomar para si mais do que é razoável
ou mesmo nada, afinal jogar o jogo é
evitar que os verdadeiros ladrões
assaltem o país: não se deve enriquecer
individualmente, nós somos os melhores.
Em última análise, tudo é feito para o
povo, é assim se evita que os verdadeiros
ladrões cheguem ao poder, tudo para
o povo, jogar o jogo sujo para o povo:
a ética está justamente aí, comedimento
e clareza dos objetivos políticos de base.
Em me sinto muito ingênuo quando
penso “E se ninguém jogasse o jogo?”,
como uma criança, penso: “E se ninguém
pensasse mais assim?”, um menino idiota:
“E se pudesse ser diferente?”, um verdadeiro
imbecil: “Não se meta nunca nisso…”.
Quem se vende e faz o trabalho sujo,
tem a gratidão eterna daqueles que
podem se dar ao luxo de dizer que
não sabiam de nada. Aqueles que
fazem o que precisa ser feito para
evitar que os verdadeiros ladrões
tomem o poder: nossos heróis,
cuja história precisa ser contada
e é preciso ajudá-los a não ter mais
que jogar o jogo. O que fazer para criar
novas regras, sem moralismo, eu
gostaria de saber qual pode ser
esta fórmula mágica.