… para o amigo Flávio Prol; para o amigo Érico Nogueira
e para o meu irmão Diogo, que aprenderam sozinhos e fazendo.
Nem sempre os poemas são feitos para se “entender” completamente. O “mistério” que fica depois da leitura faz com que esta forma de expressão não possa ser reduzida a formas discursivas e permita sempre muitas, tantas interpretações.
A poesia frequentemente lida com a sugestão de climas, relações e equivalências abrindo um grande espaço para o leitor trabalhar, agir, interpretar. Despertar a imaginação, para mim, é um de seus principais feitos e a maior alegria que a poesia pode nos proporcionar. Fazer com que nos desviemos do uso mais cotidiano e instrumental das palavras para estimular a capacidade de construir/imaginar outros mundos possíveis.
A poesia funciona, muitas vezes, como a música mais abstrata, a música clássica: tente pôr em palavras as Suítes para violoncelo solo de Bach. Elas nos fazem voar, flutuar em nossos pensamentos, mas não se pode dizê-las em um texto discursivo e achar que o que se disse é equivalente à experiência de ouvir a obra.
Por isso a poesia e a arte tendem a incomodar pessoas que têm como projeto de vida racionalizar completamente o mundo e a si mesmos. Racionalizar é ótimo, em especial quando se fala de governo, instituições, direito etc.
Mas mesmo nesses campos, trabalhar com “uma resposta” é complicado. Pode levar a posições autoritárias em que “donos da verdade” ditam o que se deve fazer a uma “massa de ignorantes”. Mesmo nestes campos, a “verdade” deve ser construída coletivamente e em diálogo, diante das várias interpretações.
Por isso mesmo, em tudo na vida há que restar um fundo ainda não explicado (e inexplicável), resistente a qualquer racionalização. Caso contrário, viveremos a ditadura de uma razão que tem a ilusão de abarcar a tudo e a todos porque julga ser “a” razão/posição/interpretação correta.
A poesia e a arte em geral têm a função de sabotar essa vontade de racionalização agressiva, invasiva, impositiva, unilateral e totalizante. Totalizar é ótimo, não sou pós-moderno, mas desde que isso seja feito em diálogo e não por algum “profeta”, “sábio”, ou “arauto intelectual iluminado”.
Por esta razão, a arte tende a provocar muita, mas muita raiva em quem seja mais cerebral e instrumental e deseje colocá-la a serviço de algo, seja entreter, seja denunciar iniquidades, seja fazer crítica social, seja “dizer o mundo”, seja lá o que for.
Tal raiva se traduz ou na rejeição completa de arte com a desqualificação dos artistas e de suas obras, classificadas como coisas ininteligíveis, inúteis, mera masturbação estética ou, em outra versão, na tentativa de explicar tudo, de esgotar o objeto artístico. Desvendá-lo completamente: dizer “a” verdade sobre a obra ou sobre o artista, o que seria o mesmo que matá-los e negar a arte como prática autônoma.
Uma variação da primeira forma de rejeição, mais recente, consiste em chamar de “arte” obras fáceis, decorativas, agradáveis, interessantes, mas que não desafiam ninguém. Os artistas que desejam “sobreviver” de arte muitas vezes entram nesse jogo e rebaixam seu padrão de criação para vender e ganhar dinheiro.
Nada a opor quanto a isso e mesmo um grande artista pode fazer grandes obras e coisinhas meramente agradáveis. Só gostaria de disputar a qualificação “arte” nesse caso. Prefiro “arte decorativa” ou “entretenimento”.
Chamar obras esquemáticas e meramente agradáveis de “arte” faz com que obras e artistas mais ousados e incômodos sejam relegados a um limbo sem público, sem crítica e sem impacto. Maluquinhos de hospício que falam apenas para si mesmos.
Fazer esta distinção não soa lá muito simpático, mas é essencial. Sem ela, o entretenimento pode vir a tomar completamente o espaço da arte, inclusive no que diz respeito a investimentos públicos e privados na produção artística.
Afinal, se obras e artistas ousados e radicais não forem legitimados pela teoria, pela crítica e pelo gosto do público, esta prática social, essencialmente subversiva e não conformista, tende a desaparecer. Por isso mesmo, diferenciar arte e entretenimento é fundamental, imprescindível. Trata-se de uma questão de sobrevivência para esta forma de expressão.
Mas voltando à poesia, acho que uma das grandes dificuldades em apreciá-la está em aceitar que nela o uso da linguagem obedece a regras de outro jogo. Um jogo que não pretende “comunicar”, mas “criar”, construir algo com e na linguagem.
Nisso ela é parecida com a escultura ou a pintura: toma certos traços do “real” e os combina de outro jeito para produzir um objeto textual que diz muitas outras coisas.
Para gostar de poesia, como para gostar de futebol, temos que entrar no jogo e apreciar o modo como cada poeta é capaz de desenhar com as palavras lances pessoais e inéditos usando as regras vigentes neste outro lugar do mundo.
Veja a diferença:
“Numa tarde de primavera, vejo da minha janela um homem que avança hesitante em direção à porta de uma casa cor de cinza.”
“Um homem hesita
diante da
casa cinza.
Nem quente
nem frio.”
O que aconteceu nessa transposição da uma experiência prosaica para a forma da poesia?
Primeiro, a divisão dos versos da primeira estrofe. Eles são cortados duas vezes em momentos específico, depois de “hesita” e depois de “da”, o que não é comum quando se diz uma frase verbalmente. Não fazemos pausa depois de “de” “de” “do”. Os cortes, portanto, tentam construir textualmente a hesitação do homem “diante da….”
O poeminha fala de “um homem” o que remete ao universal, à experiência de homens em tempos e locais variados. Não de um fulano específico, por exemplo, aquele que eu vi da minha janela hoje de manhã.
A “casa cinza”… Podemos perguntar: a casa é cor de cinza? Ou ela é a cinza, em sentido figurado, destruição, fogo, morte, ruína? Será que ela é cinza em outro sentido? Algo nem preto nem branco, indeterminado, sem graça, sem definição, confuso?
“Nem quente
nem frio.”: estes versos reforçam as dúvidas da estrofe anterior.
O que está quente ou frio? O dia? A casa? O homem? Algo que está dentro da casa? Teria a ver com sexo, um homem, uma mulher, estar a fim ou não de transar? Teria ver com morte, quem sabe um cadáver ainda morno dentro da casa…
Ou será apenas o dia, o clima? Ou tudo isso junto? O homem está com medo e sem vontade de entrar porque vai encontrar ali a morte ou alguém que não desperta mais sua paixão?
De qualquer maneira, esse poeminha é, ele mesmo, a hesitação, a dúvida, o medo, a indeterminação. Ele não “comunica” uma mensagem, mas faz com vivenciemos um estado mental e de alma. Ele nos põe na posição.
Nada é encenado “diante de nós”, ao contrário, algo nos puxa para dentro do papel, para dentro da palavra. E a palavra se torna nossa carne que passa a sofrer junto com este “um homem” feito de versos. Somos tragados para dentro de um vórtice feito de dúvida e de medo que eu chamaria de “vida” ou de “existência humana”.
O efeito de um bom poema é análogo àquele que experimentamos ao ver um filme de terror. De repente, quando menos se espera, algo estranho acontece no mundo. Um copo, ao invés de cair, flutua. As nuvens páram e uma criatura estranha nos olha de dentro do abismo que se abriu na parede da sala, arreganhando seus dentes pontiaguros.
Nossa reação é correr, fugir, nos abrigar. Mas ao recobrarmos os sentidos, depois que encontramos um lugar para nos proteger, saberemos intimamente que tudo mudou. Pois para explicar aquilo que acabamos de ver, para encaixar “aquilo” em nossa existência, será preciso construir novas teorias, novas percepções, toda uma nova visão de mundo.
A poesia é este “efeito de desorientação” ou “perda do norte magnético”, como diria poeticamente Paulo Borracha, um grande comentarista de vale-tudo.
É por fazer isso de forma tão visceral e ao mesmo tempo tão simples que eu amo a poesia (e a arte em geral) como a nada mais neste mundo. Na verdade, o que eu eu amo é a vida e as pessoas. A poesia, sem nenhuma dúvida, é uma das maiores homenagens que a humanidade foi capaz, até o momento, de prestar a ambas.
Quando estamos quase para esquecer que somos gente, tragados pelo trabalho alucinante, pela raiva do mundo, pelo automatismo de paixões doentias, pela luta por manter a sanidade em uma sociedade violenta e iníqua, pela força agressiva e opressiva de nossa certezas que nos fecha a porta para novas experiências, a poesia vem e nos lembra…
Você não é uma máquina de fazer coisas.
Você não é um mecanismo automático.
Você é uma mulher, você é um homem,
você tem sentimentos, você é
(ou pode vir a ser…)
livre!