José Rodrigo Rodriguez

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É só isso

Em Poemas para mim mesmo, 11/12/2011 às 18:24

Se eu lembrar de alguma coisa boa
para dizer a seu respeito
eu te ligo.

Mas logo chegam as férias
e quem se cansa
da cabeça cheia de problemas
das conversas breves intervalos
sem idéias amenas.

Tantas novas histórias
que eu vou inventar:
eu te ligo,
mas do mesmo lugar.

Quem poderia reclamar?
Quem ousaria censurar?
Não atenda!

Espere pelo verão que passar
sem ter pena
por apenas o mesmo homem,
se vivendo, apenas.

Por amor às aparências

Em Poemas para mim mesmo, 10/12/2011 às 20:47

Tudo aquilo que estava na sua frente
a cor e o cheiro e o preço e o corte,
o modo como se veste e como cala,
a cor dos olhos e a cor da fala,
as palavras que usa para pedir um café,
uma pizza, uma música para o DJ,
um tempo para a tragédia ou o feijão
com lingüiça para empregada,
os passos e as mãos quando se movem,
quando ainda se movem, quando ainda
se prestam, quando ainda se seguem,
quando ainda.

As duas fugas

Em Poemas para mim mesmo, 05/12/2011 às 2:13

Um cão raivoso,
um fantasma,
geografia mental,
jardim de inverno,
flores e árvores

correr, subir, voar,
o tempo quando passa,
matéria e vida,
as duas fugas.

Entre os dentes

Em Poemas para mim mesmo, 05/12/2011 às 1:09

Porque eu nunca apostei no que pode haver
de mais belo
esta tarefa para decoradores e estilistas,
esta tarefa para artesãos
de cama, mesa e banho,
esta tarefa menor
que eu sempre pudera evitar

sem perceber que um dia,
a harmonia das notas e a elegância das linhas,
um dia,
o perfil mais esguio de um corpo em plena forma,
um dia,
por menos que eu quisera saber

da falta mesma desta forma de apreço
pelo que há de mais belo
e por aquilo que ela separa,
escolhe, afasta e determina
um dia

como nunca pensei
embora antes
que o amor começasse assim
justamenta com a falta
do que eu jamais soubera

esta beleza interna
ou oração desesperada
entre o café, o arroz
e a lentilha,
torta de morangos,
creme de baunilha
maçã entre os dentes.

Seu príncipe

Em Poemas para mim mesmo, 14/11/2011 às 10:48

Espere de mim bem menos,
do que eu sou capaz,
no fundo.

O que se diz agora e o Sol
à vista,
no que você acredita
eu menos.

Não sou perfeito
não é preciso dizer
eu vou falhar
e vai doer.

Espere que eu não siga
adiante,
do que for impossível
eu sempre,
bem perto do que ainda for
ao menos
é tudo que eu posso fazer.

Espere bem menos de mim,
entenda.

Norte

Em Poemas para mim mesmo, 14/11/2011 às 10:21

São dez minutos antes da consulta
onde se aguarda, café e bolachas,
senta, levanta, senta, levanta,
quem pode ao menos desnecessário.

São sete horas de viagem ao largo
carros, caminhões, rolimãs e bicicletas
as pernas cansadas de tanto peso
o mato correndo espelho cerrado.

Uma receita, um mapa:
as recomendações da técnica,
eu espero, eu mesmo,
um norte.

O mundo em excesso

Em Poemas para mim mesmo, 01/11/2011 às 16:42

Com os olhos fechados do som
ao redor da lâmpada,
com a pele lacrada por trás
de uma nuvem de moscas

as cores da face fosca
beiral de madeira morta
a vida ensina, a boca torta
excesso de calma tóxica:

estrelas sem uivo em volta.

Canção para as horas

Em Poemas para mim mesmo, 12/10/2011 às 16:15

não há resposta
e a solução está no verso do velho mapa,
este convite para um enigma de palavras cruzadas
ou jogo de detetive: não há resposta
eu espero
eu repito
eu me lembro

há algo de muito estranho esta noite
há algo de muito podre ou a mesma trama,
conspiração universal para destruir
o tempo, o tédio, as torres irmãs,
a rede mundial de computadores
ou o que quer que ainda seja

há algo de estranho no reino da Dinamarca,
mas também aqui, quando se apura o ouvido,
no meio de tanta incerteza e o silêncio
no meio dessas horas que se estendem
por mais que um minuto,
eu espero
eu repito
eu me lembro.

Truque

Em Poemas para mim mesmo, 02/10/2011 às 12:46

Nada nesta mão
e nada naquela,
um lenço comum,
uma caixa de fósforos,
um cordão grosso,
uma bola

a haste de uma flor,
o cabo de uma faca,
o côncavo de uma página,
a sede de uma mulher,
o ovo de uma sombra,
um peixe
um osso.

Questão de classe

Em Poemas para mim mesmo, 02/10/2011 às 5:45

Na sua casa não se faz por menos
eles são grosseiros de fato,
mas grosseiros como quem?
Grosseiros como um
trabalhador manual embrutecido
pelos tijolos que carrega?
Ou como um executivo
que não lembra de dizer bom dia
para a mulher e para os filhos?
Grosseiros como alguém
que nunca foi para a Europa
e nunca viu a capela Sistina?
Ou grosseiros como quem não leu
Proust e não sabe da existência
dos livros do catálogo da Companhia das Letras?
Na sua família não se faz por menos
eles são mesmo grosseiros,
e grosseiros como alguém que sabe exatamente
o que se deve esperar
no espaço milimetricamente
adestrado
como seu terno e seu vestido perfeitos,
pois eles são mesmo grosseiros
com os olhos de quem olha
nestes olhos de quem vê:
é uma questão de classe.

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